O elemento libertador das forças criadoras

Durante a etapa das obras de arte,  cada vez que chegava uma caixinha com uma nova obra enviada pelos estilistas, o sentimento que eu vivia era aquele de criança recebendo um presente, um misto de emoção e ansiedade para ver o que tinha dentro do pacote. Cada nova obra, uma nova surpresa, induzindo a um olhar detalhado imaginando qual a mensagem que cada estilista gostaria de transmitir com sua criação.

Vários processos  artísticos e criativos diferentes foram utilizados nas obras, pinturas e colagens produzindo os mais diversos efeitos. Diferentes detalhes e adereços, alguns minúsculos e delicados, outros de maior proporção, e independente do tamanho, cada um a sua maneira mostrava um pouco do criador por trás daquela obra.

Nas particularidades e minúcias únicas que cada obra trazia, a repetição de um elemento em  diversas delas me chamou a atenção: asas.

Considerando o fato de que todos estilistas receberam a mesma temática, um quadro do artista Flávio Scholles chamado  “A Sapataria”,  e nesta obra não aparece nenhuma “asa”, comecei a me questionar o porque , seria apenas mera coincidência?

Como diferentes profissionais, de diferentes pólos calçadistas, atuando em diferentes segmentos de calçado, colocavam em suas criações o mesmo elemento?

As asas simbolizam a liberdade, a leveza, a inteligência, a inspiração, o espírito, a alma, o céu, o divino. Seriam os inconscientes coletivos se manifestando?

Durante a exposição das obras de arte, conversando com os estilistas, era comum me confidenciarem a alegria e o sentimento que vivenciaram ao executar a sua obra, alegria esta que muitos nem lembravam como era. O prazer de ter um espaço para colocar a criatividade em prática é muito raro, pois absorvidos pela máquina da produção de novos modelos diários, envolvidos pela engrenagem  e rápidez de um mercado cada vez mais competitivo e ávido por novidades, sobra pouco tempo para criar.

Acredito que de certa maneira, as asas apareceram como um grito coletivo de liberdade ,  como símbolo da necessidade de um espaço de maior tempo para criação nas coleções.

Finalizo este post, desejando que a simbologia das asas das obras de arte, nos levem a um setor calçadista mais livre, mais criativo e inspirado. Que  surjam coleções que nos surpreendam, que toquem a emoção dos consumidores, despertando os desejos talvez um pouco adormecidos, mas que ainda permanecem dentro de cada um de nós, lembrando a frase de William Shakespeare: “ A arte é o espelho e a crônica da sua época.”

Melissa W. Sant´Ana

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